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A Natureza como Infraestrutura Urbana

Por Pedro Henrique H.F. de Cristo Seja nas chuvas que geram enchentes e erosão em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, nas secas que assolam a Cidade do Cabo na África do Sul, ou nos avassaladores incêndios em Valparaíso no Chile, uma dinâmica é comum, os eventos climáticos extremos estão aumentando e se tornando padrão. Essa escalada ocorre enquanto nossas cidades e territórios não estão preparados para lidar de forma resiliente com esses fenômenos. Países pobres e em desenvolvimento são os mais atingidos com 98% desses eventos [ONU] tendo sido historicamente menos responsáveis pela Crise Climática e terem menos recursos para responderem a mesma.

Um problema decisivo nesse contexto acomete tais países e suas cidades, a falta de desenho urbano e de paisagem. Entenda-se por paisagem todos os componentes de um território sejam eles naturais, desde sua topografia até a composição do seu solo, seu sistema hídrico e vegetação chegando a incluir também seu espaço urbano justaposto na natureza, a paisagem urbana. Um grande exemplo da ausência dessas práticas se dá em São Paulo onde tem sido sistemático por parte de seus governantes aterrar rios e impermeabilizar os leitos destes em prol do modal automobilístico, inclusive suas duas principais marginais, comprometendo gravemente a resiliência a chuvas extremas da metrópole.




Maior cidade do hemisfério sul, São Paulo cresceu espantosamente de 40 mil habitantes em 1890 para 18 mi em sua área metropolitana em 2020 como uma colcha de retalhos urbana sem o menor planejamento quanto a áreas vulneráveis às enchentes e sua interação com a natureza. Balanço do último evento extremo, 62 pontos de alagamento na cidade e uma total incapacidade da prefeitura em antecipar e responder ao fenômeno.

Ainda na macrorregião Rio-SP, terceira maior do planeta com 43 mi de habitantes, os arcaicos muros de contenção utilizados nas favelas do Rio de Janeiro, como o Vidigal e a Rocinha, não dão conta dos atuais padrões de chuva e a erosão é uma constante nos morros enquanto que os alagamentos se repetem nos planos da cidade. Mais ao norte, Belo Horizonte, outra das principais cidades do país, sofreu recentemente vasta destruição, que custou vidas e prejudicou a pobres e ricos sem distinção. Juntando os custos dos danos nas três cidades o prejuízo financeiro da falta de preparação aproxima-se ao meio bilhão de reais apenas no começo desse ano.

Junte-se ao descaso e incapacidade técnica dessas prefeituras o fato de que os padrões de chuva mudaram nestes três centros urbanos. As chuvas tornaram-se mais escassas e quando ocorrendo mais intensas criando então o cenário ideal para enchentes e erosões: solo mais arenoso e impermeável que sofre maior pancada d’água em um curto espaço de tempo [ex:1 mês em 2 dias] em territórios que sofrem perda de vegetação nativa devido ao crescimento desordenado e estão impermeabilizados em grande proporção pelo asfalto e concreto.

Aproveitar bons projetos urbanísticos anteriores é necessário mas não é o suficiente devido aos acentuados impactos da Crise Climática e o crescimento não previsto das nossas cidades. É urgente avançar do planejamento urbano para prática específica de desenho urbano e de paisagem utilizando a natureza como infraestrutura como se faz na Holanda, onde existe excesso d’água, e em Singapura, onde é necessário lidar com constante escassez hídrica. Precisamos também aplicar tecnologia de ponta tanto para antecipar desastres como para produzir intervenções urbanas multifuncionais que fortaleçam os sistemas naturais e contribuam para o funcionamento da cidade.


Em todas as áreas urbanas solidificadas no Brasil, como São Paulo, teremos o desafio de reconstruir o grid, a rede de infraestrutura, num projeto de redesenho urbano que exigirá grandes esforços. Entretanto, o custo de não o fazer é muito maior do que o das intervenções necessárias. Só temos uma chance de nos adaptar e ser resilientes aos eventos extremos da Crise Climática, não temos como vencer a natureza, precisamos nos unir a ela.

Pedro Henrique H.F. de Cristo é polímata, urbanista e Mestre em Políticas Públicas em Harvard, Professor Visitante da Universidad EAFIT-Medellín e da Universidade Diego Portales-Santiago; Criador da Ágora Digital

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