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Apocalipse Now

Por Facundo Guerra Eu confesso, com uma certa vergonha, que desisti de ser otimista, condição que me perseguiu quase toda a vida e da qual me orgulhava. Obviamente que não era um otimista do tipo parvo, que sai abraçando árvores e entoando hakuna matata enquanto passeava com a minha filha pelos poucos parques que temos em São Paulo.


Eu intuía a gravidade da situação, me sentia aflito para mudar algo em minha consciência, não por mim, que eu já estou feliz com a meia vida que atingi (daqui pra frente a luta contra a entropia começa a ficar cada dia mais inglória), mas pela minha filha de 7 anos, que suspeito terá uma vida adulta muito diferente da minha, que foi a de uma existência despreocupada com os impactos de meus privilégios. Pina não. Pina terá que pesar e questionar cada uma de suas escolhas de consumo. Para mim, consumo era escapismo, anestesia e entretenimento. Para ela, será uma questão de sobrevivência: “não consumir para existir”, diferente do meu “consumo, logo existo”.


Meu otimismo era do tipo tecno-utópico: acreditava que existiria um deus-ex-machina em forma de uma nuvem de nanorobôs dirigidos por uma inteligência artificial que, no crepúsculo da nossa existência, reverteria os males que causamos nos últimos séculos a este planeta. Até que me dei conta de que, diferente da minha fantasia, não existe um retorno epicurista para os danos provocados ao planeta, pelo menos não no nosso tempo de existência: precisaremos lidar com os danos causados no decorrer do antropoceno pelos próximos séculos, se não milênios.


De tecno-utópico a econiilista, nome pomposo que dei pra minha paranoia e fantasia sobre o fim do mundo. Ando pelas ruas com saudade de hoje, olhando pras pessoas e arquiteturas e vendo tudo submerso por metros e metros de água: “esse concreto estará aqui em 100 anos, em mil, não”, e vejo tudo devastado, sendo engolido pela natureza novamente, como se fosse um viajante do tempo e soubesse exatamente o que acontecerá em poucos anos. Não mais fantasio o fim, mas o sinto cada dia mais próximo.


É um pouco constrangedor, confesso. Como conciliar a necessidade de produzir no presente com a certeza de finitude em um futuro próximo? A morte é sempre um jogo de dados. Quantos anos mais tenho? 10? 20? 40, no limite (por dios, no más?). Mas se o fim é coletivo, a morte já não é uma questão de jogo de sorte. Se sobre a morte no plano íntimo sempre podemos exercer algum tipo de controle (preciso parar de fumar, me exercitar, check-up uma vez por ano, talvez não seja muito sábio dirigir depois dessa garrafa de vinho), no plano coletivo ela apenas nos deixa impotentes e resignados.


Desde os chipanzés fantasiamos com o fim de nossa existência: seja por um cometa, pelo retorno do filho do homem fazendo chover enxofre, seja pelo sem número de vezes que Hollywood estimulou nossa morbidez com o desejo pelo fim da Terra: alienígenas, meteoros, vulcões, tufão de tubarão, dá pra perder a conta do número de filmes de ficção científica do tipo apocalípticos. Sim, existe até um subgênero de ficção científica para filmes onde acabamos com a nossa raça usando CGI.


De uns tempos pra cá, no entanto, acho que estamos deixando de ver a possibilidade de destruição de nosso mundo como uma peça de ficção científica. Expectativas sobre o apocalipse começaram a povoar o gênero dos documentários e o noticiário, e cada vez menos vejo filmes sobre o apocalipse nos cinemas. Acho que a possibilidade ficou palpável demais pra nos divertirmos com ela.


O que fazer, então? Sigo mascando menos carne, criei uma certa alergia a plástico, tento comprar cada vez menos, e no paralelo estou criando uma casa que possa colocar em qualquer lugar longe da civilização e que não dependa de água, luz ou esgoto. Pode ser paranóia, mas não me peça um cantinho quando o dia do nosso fim chegar.

Facundo Guerra é engenheiro de alimentos, jornalista internacional e político, mestre e doutor em Ciência Política pela PUC-SP, diagnosticado empreendedor aos 30 anos de idade.

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