• Alessandro Meiguins

Minha patada de carbono

Fui entender qual a minha culpa nessa história e o que posso fazer para atenuar a conta.


Por Giovana Madalosso Sempre pensei que eu tinha o carma ecológico de uma borboleta ou de uma mosca. Afinal, sequer mato moscas, deixo-as viver e proliferar por esse planeta que considero tão meu quanto delas. Mas a verdade é que no momento esse tipo de piedade verde não tem muita importância. Nós e todos os outros seres vivos dessa terra estamos prestes a fritar na chapa do aquecimento global, com perspectivas de aumento de 2, 3 ou até 5 °C, e isso sim é relevante.

Nesse cenário, que envolve a elevação do nível do mar, a extinção de diversas espécies, aumento de desastres naturais e até o desaparecimento de cidades como Rio de Janeiro e Miami, caso cheguemos a mais 4 °C até 2060, o que muda a situação é a quantidade de carbono que cada um de nós emite. As partículas de CO2 criam um manto na atmosfera, como se fossem um papel alumínio e nós, o peru embaixo dele. Como não tenho talento para ceia de natal, fui entender qual a minha culpa nessa história e o que posso fazer para atenuar a conta.


Entrei no Google e procurei uma calculadora de pegada de carbono. O cálculo não custa nada, leva menos de dez minutos para ficar pronto e é revelador. Eu não sabia que a minha dieta era tão importante. Adoro churrasco e foi difícil descobrir que o pum da vaca é mesmo uma bomba, não só olfativa, mas em termos de liberação de metano, outro gás do aquecimento. Embora a calculadora não leve isso em conta, também é importante dizer que agropecuaristas precisam de área para criar aquelas deliciosas maminhas. E quanto mais área precisam, maior o desmatamento. Aproximadamente 80% do verde derrubado na Amazônia é para pastagem. Outro dado impressionante: 96% dos mamíferos hoje são constituídos por humanos e seus animais de criação, e apenas 4% deles são selvagens. O que também significa que já transformamos profundamente a natureza, e o resultado disso… Bem, vamos em frente.


Consumo de gás e energia elétrica. Acho que passei na média. Com relação a transporte, pesou na calculadora. Tenho carro, adoro rodar por aí com o cotovelo para fora ouvindo um som e fazendo de conta que em São Paulo realmente dirigimos, quando em geral tudo o que fazemos é ficar sentados no farol cutucando o smartphone. E isso geralmente sozinha, na conta de um veículo por pessoa. Ruim? Vai piorar.


O grande problema veio no item seguinte, que fez a calculadora apitar, sacudir, soltar fumaça pela borda dos números. Os voos. Confesso que considerava-me chiquérrima por às vezes fazer um bate e volta para falar de literatura em outras cidades. Por já ter voado até outro país só para ver um show. Mas de repente eu, minha valise e meu cartão de embarque pareceram a coisa mais cafona do espaço aéreo. Descobri que os voos são os maiores emissores de CO2 no âmbito da pessoa física. Uma viagem de ida e volta de Londres para Nova Iork emite três toneladas de carbono por pessoa. Um europeu gera, em um ano inteiro, uma média de dez toneladas. Não à toa, os suecos já têm um termo para o constrangimento social de voar, flygskam.


Assim que inseri os trechos, a calculadora cravou o resultado final: a minha pegada de carbono é de 11 toneladas por ano. Mais baixa que a média americana e mais alta que a média europeia e brasileira. E para compensá-la devo plantar setenta árvores por ano. Olhei de novo o número. Como assim? Eu vivo num apartamento. Na minha varanda só dá para plantar um pé de feijão. Levanto, caminho pelo meu espaço exíguo, penso um pouco. Talvez seja mais fácil diminuir a pegada do que sair por aí como quem não quer nada semeando pitangueiras no quintal de desconhecidos.


Primeira decisão: andar mais de bicicleta, fazer alguns trechos de metrô e nunca abastecer com gasolina, nem que essa seja a última gota de combustível do deserto. O lobby do petróleo trabalha duro para esconder, então me darei o prazer de falar, a marvada gasosa é infinitamente mais poluente do que o álcool. Quanto ao veículo a diesel, só não recomendo que o proprietário largue-o do topo de um penhasco porque pode matar alguém lá embaixo ou amassar um par de plantas. E falando em matar, também resolvi poupar a vida de alguns bois, reduzindo o consumo de carne da minha família a uma vez por semana, quando degusto com lágrimas nos olhos um pedaço de picanha, torcendo para que a humanidade se comporte e ainda possamos fazer isso por um bom tempo.


Agora, a parte aérea. Etérea. O cachimbo de crack do aventureiro. Claro que não consegui largar. Aliás, estou segurando nesse exato momento um bilhete para Madri, onde exibirei cafonamente a minha rodada valise. Eu sei, é péssimo, mas também é maravilhoso. Quem sabe em breve eu deixe de fazer alguns voos a trabalho, muitos encontros não são imprescindíveis – aliás, seria bonito de ver as empresas se colocando publicamente contra reuniões presenciais desnecessárias. Mas por hora já transformei a minha patada de elefante numa pegada de capivara. E isso já é alguma coisa.

Giovana Madalosso é escritora e roteirista. É autora da coletânea de contos A teta racional e do romance Tudo pode ser roubado.

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